





A arte de Dani Fontenelle nasce no ponto exato em que o gesto se dissolve e a matéria assume o comando. Nada nela é cálculo. A tinta age por impulso, a cor se move por instinto, o tempo participa como testemunha silenciosa.
Cada obra é o resultado de um acontecimento: a pintura não é feita, ela acontece — como um fenômeno natural, irrepetível e inevitável. O vermelho, presença constante em sua trajetória, pulsa como o centro vital de sua obra. Não é cor, é temperatura. É o sangue da criação, o calor do instante, a vibração que sustenta o invisível. Esse vermelho não representa: ele irradia. Expande-se para além da forma e alcança o corpo de quem o vê, provocando sensação antes de pensamento.
Na arte de Dani Fontenelle, a tinta não é obediente — é viva. Ela escolhe o caminho, escorre, se encontra e se transforma em pensamento.


É cor e é ritmo. É sangue que corre, flor que se abre, fogo que não pede licença. Pintar com o vermelho é tocar o território da origem — e, ao mesmo tempo, o da revolução.
Na história da arte, o vermelho foi sempre ambíguo: cor do poder e do perigo, da paixão e da punição. Mas nas mãos femininas ele muda de sentido. Na mulher que cria, o vermelho deixa de ser ameaça e se torna afirmação. Não é o tom do escândalo, mas o da presença — um lembrete de que existir é um ato de força contínua.
O vermelho é a cor da fertilidade, mas não apenas biológica. É a fertilidade do pensamento, da emoção, da criação. É a cor das mulheres que inventam linguagens, que fazem da tinta um território onde podem existir inteiras. Em cada camada dessa cor há um batimento. Em cada mancha, uma lembrança do que é nascer, perder, recomeçar. O vermelho carrega em si o ciclo completo: a dor, o prazer e a possibilidade.
Na pintura, ele é uma força viva — jamais neutra, jamais contida. Quando uma artista mergulha no vermelho, ela mergulha em si mesma. O vermelho é o território das mulheres que criam mundos: que fazem da tinta, da palavra ou do gesto, o lugar onde podem existir inteiras. Em cada camada dessa cor há um ritmo interior, uma lembrança de que viver é fluir entre começos e recomeços.
Quando uma artista o escolhe, ela não está apenas colorindo: está se ligando ao que há de mais vital dentro de si. O vermelho é o fio invisível entre corpo e cosmos, entre gesto e sentimento, entre ação e sentido. É a cor que torna visível o que o coração sente antes que a mente compreenda.
Por fim, o vermelho é o tom do renascimento. A cada nova camada, ele queima e cura, destrói e refaz. É a cor que marca o instante em que o velho se dissolve e o novo se atreve a nascer. Porque o vermelho, em sua essência, não pertence ao fogo nem ao sangue — pertence àquilo que faz tudo existir: a coragem de sentir profundamente e continuar criando.


“A minha arte não nasce de um desenho nem de um desejo de controle. Ela acontece como a água que encontra passagem, como o instante que se derrama sem pedir permissão. No meu ateliê, o mundo exterior silencia e a matéria começa a falar; ali, aprendi que a tinta não deve ser obediente — ela precisa ser viva.
Para mim, o ato de pintar é um exercício de confiança e uma aliança com o imprevisível. Utilizo o derramamento não como um acidente, mas como um método de escuta. A tinta acrílica é guiada pela gravidade, pelo tempo e pela intuição. Eu inicio o gesto, mas é a cor que o completa.
Nesse processo, o Vermelho é o meu centro vital. Não o vejo apenas como cor, mas como temperatura: a seiva da criação e o calor do instante que sustenta o invisível. Já o Azul surge como um estado de alma, a vibração do silêncio e a serenidade de quem conhece a profundidade.
Encontrei na pintura a alquimia entre a razão da minha formação e o instinto do meu eu autodidata. Busco transmutar o que vejo em gestos de pura luz e movimento.
A arte me ensinou que o belo não se impõe; ele se permite acontecer.”


Aqui, o belo não se impõe — ele simplesmente acontece.
O vermelho, embora seja a essência e a temperatura central da obra de Dani Fontenelle , não é o único território explorado nesta jornada de derramamentos. Em sua busca pela verdade que habita o imprevisto, a artista também se entrega à serenidade líquida do azul , à clareza estrutural do branco e à complexidade de matizes que ecoam os ritmos da natureza e da arquitetura.
Cada tonalidade, guiada pela gravidade e pelo tempo , revela a maestria de Dani em permitir que a matéria dite sua própria forma. Aqui, as cores deixam de ser pigmentos para se tornarem estados de alma : o azul profundo que vibra em sutilezas e o diálogo luminoso onde a cor se funde à luz. Explore estas composições onde o belo não se impõe, mas se permite florescer em toda a sua diversidade cromática.





